Dá um abraço à ilha por mim

Chegando à ilha de São Miguel                                                             Photo by Fernanda Sousa

 

A poeta Gabriela Silva tinha vindo da ilha de São Miguel, para falar aos alunos de português na Universidade de Toronto, e corri ao seu encontro, cheio de saudade para ver e ouvir uma escritora que não conhecia, mas que pensei me viesse trazer um pouco do cheiro marinho e húmido da ilha verde e deslumbrante da minha infância, escondida na imensidade do mar dos Açores.

Pensei que fosse ouvi-la falar, com o sotaque da minha terra natal. Todavia, a poeta falou em inglês para que todos pudessem compreendê-la. Fiquei triste por a ouvir em tradução, esperando que saísse da sua boca alguma palavra na língua materna. Depois da sua palestra, aproximei-me da poeta para lhe agradecer a sua presença, e, murmurei no seu ouvido, “Quando voltares, dá um abraço à ilha por mim”.

Seria outono em Toronto. O céu estava límpido e azulado como um berlinde. Sentava-me no silêncio do meu jardim e olhava as folhas luminosamente amarelas e vermelhas das árvores, que, acariciadas pelo vento, dançavam e caíam ao chão numa languidez suave e final. O vento, gélido, penetrava-me a pele, das pontas dos dedos das mãos e depois, descendo até aos dedos dos pés. Respirei fundo, chupando o ar frio como um sorvete de chocolate num dia quente de verão, caindo no meu estômago com um frio arrepiante.

Lembrei-me das palavras de Gabriela Silva sobre o tempo nas ilhas açorianas, das suas brumas, chuvas e humidade que deixam as pessoas com o espírito pesado da natureza primordial que são as ilhas dos Açores.

Nunca mais me tinha lembrado desse peso da chuva e dos nevoeiros. É possível que tivesse sentido esse peso dentro de mim quando era criança, mas a verdade é que, quando cheguei a Toronto, com os meus nove anos, num dia geladíssimo de Fevereiro, encontrei-me com a neve branca dos invernos canadianos que me roubaram a memória daquele peso e daquela escuridão entre brumas da ilha que deixei.

No entanto, apesar de viver há mais de quatro décadas em Toronto, sempre permanece dentro de mim uma lembrança vaga do mar que afoga a alma e ao mesmo tempo a liberta.

Gabriela Silva escreveu que “Onde estiver um açoriano, quer fale inglês escorreito quer fale português espúrio, estará um ser diferente, distinto dos outros. Que sente com a alma, que tem mar nas vísceras, nevoeiro nos sonhos e lonjura no olhar.” (Dizer Adeus, página 72, in Abraço de Mar)

Nestas palavras me encontro, me identifico, e apesar de estar longe da ilha onde nasci, quando vou à beira do lago Ontário, com as suas ondas suaves, ouço um eco das ondas bravas do mar dos Açores. É uma ligação inexplicável que me ajuda a lembrar que por mais longe que eu esteja das ilhas, aquelas brumas e chuvas e nevoeiros continuam a chamar o mais íntimo do meu ser da margem onde estou.

Escrevo esta reflexão no fim de um inverno rigorosíssimo, com neve ainda cobrindo o meu jardim, apesar do calendário indicar que já chegou a primavera, e pergunto-me, “Como será o tempo agora na minha ilha longínqua, mas sempre dentro de mim.” Um impulso leva-me à Internet e marco um voo com a SATA International. Vou a Ponta Delgada, e a emoção deste encontro já alegra a minha alma. Desta vez, não precisarei de portador, serei eu mesmo que darei o meu abraço à ilha.

Originally published in Mundo Açoriano, 2014

 English translation coming soon.

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The musings of a torontonian azorean on identity and belonging. You can find me at https://thetorzorean.com/
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